Artigo: Desafios da Indústria 4.0



Por Diego Teixeira

Executivo de Contas na SKA

 

Vamos analisar os desafios desta revolução tecnológica sob três óticas: desafios do país, das empresas e das pessoas. Como país precisamos de políticas e incentivos tanto da iniciativa pública, como da iniciativa privada. As empresas precisam se preparar para as mudanças, caso contrário estarão fadadas a desaparecer. As pessoas precisam de um mindset voltado para a evolução da sua capacidade de gerar valor para não se tornarem obsoletas. A indústria 4.0 parece um conceito um tanto quanto abstrato e demasiadamente complexo devido a diversas vertentes que vêm surgindo, entretanto ela é baseada num conjunto de tecnologias e metodologias que buscam tornar o processo de fabricação mais eficiente em diversos sentidos. Um grupo de trabalho alemão apresentou seu relatório na feira de Hannover em 2013 formado por um conjunto de recomendações para o governo da Alemanha para implementação da indústria 4.0 como parte do plano estratégico de alta tecnologia do país. Ele é composto por: interoperabilidade, virtualização, descentralização, informações em tempo-real, computação em nuvem e modularização. O nível de imersão na indústria 4.0 depende do tipo de indústria e do tamanho da mesma, pode ir desde uma mera automatização de processos até uma transformação total numa fábrica inteligente com todos os processos integrados, altamente flexível para atender as demandas do mercado e disponibilidade de informações para tomadas de decisão rápidas.

O Brasil é um país com uma indústria de nicho, principalmente se não levarmos em consideração as multinacionais que possuem apenas montagem no país, como por exemplo algumas automobilísticas e de eletrodomésticos. Além disso, nossa indústria vem diminuindo sua participação no PIB a cada ano. Mesmo que isso venha mudando nos últimos anos, podemos contar nos dedos as empresas que são líderes em seus segmentos e conseguem competir globalmente com empresas de outros países. A consequência disso é que muitas empresas nascem para atender um segmento bastante específico, se desenvolvem através do seu know-how e aplicação de alguns processos de forma eficiente, elas continuam crescendo de forma regionalizada e então param, se acomodam. Isso acontece porque competir com empresas de outras regiões é difícil, muitas empresas não querem sair da zona de conforto depois que chegam lá e existem diversos motivos para que isso aconteça, desde cultura empreendedora até a complexidade tributária e de logística para atender outras regiões do país. O governo tem o desafio de simplificar as coisas, não só para as indústrias que já estão estabelecidas, mas também para as que estão prontas para nascer e ainda não encontraram os meios. E isso vai além de incentivos fiscais e programas de financiamento, precisa começar na educação profissional e na criação de programas específicos de “importação” de tecnologias e metodologias, bem como adaptação das mesmas à nossa realidade. Já é possível perceber alguns movimentos nesse sentido, como a parceria com a FGV Projetos para criação da Agenda Brasileira para a Indústria 4.0, alguns créditos para financiamento e diversos cursos do SENAI sendo oferecidos.

A responsabilidade das indústrias para se modernizarem é consigo mesmas, aquelas que não evoluírem estão fadadas a desaparecer. E não é exagero, essa revolução está acontecendo de forma rápida e centrada no consumidor e não nas fábricas. O cliente final quer produtos melhores e mais baratos o mais rápido possível, ele vem mudando seus hábitos de consumo e as empresas precisam enxergar isso e se adaptar à nova realidade. A indústria 4.0 precisa conectar o desejo do cliente com o designer do produto, com os fornecedores de matéria-prima, com os fornecedores de máquinas e equipamentos, tudo estará conectado. O primeiro passo para a mudança é um olhar regressivo, entender  as características do mercado em que se está inserido e analisar os riscos e oportunidades para definir o melhor posicionamento. Os números mostram que atender apenas um nicho é perigoso, é cada vez mais comum um grande player entrar no mesmo segmento para aproveitar um mercado aquecido, quando isso acontece as PME’s precisam se tornar mais eficientes para competir de igual para igual. As fábricas precisam ganhar flexibilidade para atender diversas configurações de produto, ou pelo menos garantir uma customização aderente ao seu mercado. O primeiro passo é a integração de sistemas, onde o que é feito na engenharia seja aproveitado no setor administrativo, na manufatura e vice-versa, reduzindo retrabalhos e erros que custam muito caro para as organizações, mas geralmente ficam escondidos entre outros processos. A informação precisa sair da cabeça das pessoas para que elas possam se ocupar de tarefas mais nobres e deixar que os sistemas informatizados cuidem dos dados simples sobre produtos, fábrica e clientes. A engenharia precisa desenvolver produtos que sejam manufaturáveis com o menor custo possível e para isso precisa saber de antemão que tipo de matéria prima deve usar, precisa ser capaz de rodar simulações para entender se produto está sendo desenvolvido com o menor custo e melhor desempenho e precisa saber se as máquinas que a empresa possui serão capazes de produzir aquela configuração. Não há mais espaço para empresas em que a informação está apenas na cabeça do engenheiro ou do gerente ou do operador, essa informação precisa estar disponível para todos sempre que precisam se aproveitar desses dados, até mesmo clientes podem ser abastecidos de informações mais cedo no processo de consumo e que o ajudará a tomar a melhor decisão de compra. As funções totalmente burocráticas nas empresas precisam ser automatizadas, algumas delas são: cadastro de itens no ERP, programação de máquinas, codificação de itens de projeto, distribuição de ordens de fabricação, confecção de manuais, entre outras. Os gestores e diretores precisam conhecer mais a fundo os seus processos, olhar para fora da empresa para saber o que está sendo feito e analisar sua cadeia de valor de forma estratégica, investir tempo e dinheiro apenas naquilo que agrega valor ao seu produto final.

Além de investir na produtividade é preciso monitorar constantemente os parâmetros de eficiência, buscando pontos de melhoria e correção de erros de forma rápida. Nesse quesito o desafio é entender que ser produtivo é diferente de ser eficiente, em um exemplo hipotético posso ter uma fábrica com 20 máquinas e ocupar apenas 60% da mesma com a produção atual, conseguindo entregar dois mil produtos por mês. Qual seria o impacto de conseguir utilizar menos recursos e produzir os mesmos dois mil produtos? Se eu estou produzindo pouco é porque estou vendendo pouco, se eu conseguisse reduzir meus custos operacionais, eu poderia rever o modelo de formação do preço dos meus produtos para criar novas estratégias e voltar a aumentar as vendas. É por isso que a empresa precisa pensar como um organismo só, com diversos subsistemas interdependentes. As tomadas de decisão precisam ser baseadas em dados reais e não no feeling do gestor, muitas empresas compram máquinas novas quando poderiam investir 30% desse valor em treinamento dos funcionários ou em um novo layout mais eficiente. A cada degrau na escala de tamanho de empresas os desafios mudam, PME’s enfrentarão dificuldade em automatizar máquinas antigas e excessivamente manuais, enquanto empresas grandes encontrarão dificuldades para virtualizar o complexo processo de fabricação para análises estratégicas. A grande maioria das empresas no Brasil está entre esses dois extremos e encontrará um pouco de cada dificuldade, por isso é preciso buscar parceiros de tecnologia consolidados e que possuem experiência suficiente para entregar soluções efetivas. É imprescindível implantar a digitalização nas empresas, para que as análises de dados sejam precisas e indiquem o caminho correto dos investimentos. A digitalização compreende a sensorização da manufatura para geração de dados ricos o suficiente para obter conhecimento sobre a sua empresa de forma profunda, permitindo fazer escolhas inteligentes. O obstáculo é compilar todas essa informações e combinar com o conhecimento sobre clientes, fornecedores e todos aqueles que podem influenciar na geração de valor do seu produto ou serviço. O relatório confeccionado pela conceituada empresa de consultoria PwC indica que metade das empresas entrevistadas no Brasil afirmam que limitações das competências e habilidades dos grupos de trabalho serão o principal desafio na evolução da análise de dados.

Essa revolução vai exigir profissionais que buscam constantemente conhecimento para colocar em prática todas as novas metodologias gerando valor, não só para as organizações como também para a sociedade. Todos sabem que muitas funções deixarão de existir, enquanto outras serão criadas, serão necessários profissionais que consigam pensar de forma mais universal, que entendam como a empresa funciona em vez de se ater apenas às suas tarefas. Como já foi dito anteriormente, funções meramente burocráticas e operacionais serão substituídas por sistemas automatizados muito mais eficientes, enquanto serão cada vez mais requisitados cientistas de dados, programadores, analistas de processsos, planejadores etc. Todo o movimento se resume a pessoas, todas as metodologias e tecnologias são desenvolvidas por pessoas que pensam fora da caixa. Aplicar todo o conhecimento adquirido também é uma habilidade que já é valorizada indiretamente, existem muitos profissionais que conhecem muito sobre diversos processos, mas não sabem colocar em prática. Muitos modelos de negócio serão repensados, abrindo espaço para a inovação, empreendedorismo e diversas pequenas disrupções. O desafio do profissional 4.0 é entender onde deve se encaixar nesse novo mercado e onde buscar conhecimentos válidos para a sua área de atuação. Gestores, diretores e presidentes precisam propor planos que instiguem mudanças em ambientes controlados com o intuito de descobrir novas formas de gerar valor para o consumidor final.

É bastante comum encontrar-se perdido com tantas informações circulando de diversas fontes, o que cada pessoa e empresa deve fazer é entender o seu papel como um componente e procurar se reinventar. O melhor caminho é a estruturação de um plano de longo prazo, parcerias estratégicas, definição de papéis, busca por conhecimento e, principalmente, resignação para não mudar a tática ao sabor do vento. Infelizmente existem poucas referências em estágio avançado no Brasil, apenas algumas de forma isolada ou empresas internacionais que estão simplesmente espelhando o que já foi feito lá fora nas fábricas do país. Os líderes em suas organizações têm o dever de buscar modelos e recomendações consolidadas, descentralizar a tomada de decisão e separar o que é funcional e escalável daquilo que é puro engodo. Só assim construiremos uma indústria forte, eficiente, competitiva e que colherá muitos frutos no futuro.

 

Este artigo foi publicado originalmente na edição 81 da Revista Ferramental e pode ser visualizado através do link: https://issuu.com/revistaferramental8/docs/edicao-81/34